Caso Clayson: Violência de atletas contra mulheres não é novidade no futebol

 por Nuno Krause

Caso Clayson: Violência de atletas contra mulheres não é novidade no futebol
Foto: Divulgação / Ascom Dourado

A rescisão do Cuiabá com o atacante Clayson (leia aqui), que pertence ao Bahia, nesta quinta-feira (9), acendeu mais um alerta para os crimes de violência contra a mulher. O atleta confessou ter agredido uma jovem de 22 anos com uma garrafa quebrada em um motel no Mato Grosso do Sul. O caso aconteceu na segunda-feira (6). Na sequência, a mulher ainda foi para um hotel e tentou suidício, cortando o pescoço com um caco de garrafa e tomando comprimidos para depressão, mas foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e internada no hospital. 

 

O crime não é novidade no mundo do futebol. O caso mais famoso e que até hoje não sai dos holofotes é o do goleiro Bruno, que assassinou a modelo e ex-amante Eliza Samúdio em 2010. Após cumprir quase nove anos de prisão, o atleta vez ou outra aparece no noticiário com clubes interessados em contratá-lo. 

 

Desde 2017, ele já assinou com Boa Esporte (5 partidas), Poços de Caldas (zero), Rio Branco-AC (18) e Atlético Carioca (2). Em janeiro de 2020, o Fluminense de Feira anunciou negociações avançadas com Bruno (lembre aqui), mas recuou da contratação após a repercussão negativa. 

 

Para a advogada Daniela Portugal, especialista em Direito Penal, essa situação tem dois pontos a serem analisados. O primeiro diz respeito ao sistema prisional do Brasil, que, na visão da profissional, falha no processo de ressocialização para pessoas que cometem crimes em geral. 

 

“Quem fica preso no sistema carcerário vai experimentar uma violência do estado sem nenhum projeto pedagógico, por mais que existam algumas iniciativas em alguns estados. Não existe um plano nacional de ressocialização. Então as pessoas retomam apesar da prisão. Eu não vejo essa prisão como instrumento útil ou apto a ressocializar indivíduos”, destacou, em entrevista ao Bahia Notícias. 

 

O segundo ponto está relacionado à falta de um projeto eficaz contra a violência de gênero. “A Lei Maria da Penha prevê a educação como uma das medidas, mas a aplicação prática disso não está disseminada no país. Carece de aplicabilidade em relação a vários de seus dispositivos”, avalia. 

 

Quando isso envolve atletas, que estão constantemente em exposição na mídia, o problema se complica. “Não há, uma vez cumprida a pena, ou até mesmo durante, impeditivos para o exercício do trabalho. Muito pelo contrário, o trabalho é um ponto de incentivo. Agora, ao lado disso, o ídolo está de uma maneira projetando para o público um estilo de vida. Eu penso que os grandes clubes, que tenham consciência social, não devam incentivar a idolatria de pessoas que agridem mulheres. O ideal é a reinserção também dentro de um espectro de educação social”, pontuou. 

 

CASO CUCA

O técnico do Atlético-MG, atual campeão brasileiro, Cuca, foi condenado por estupro em 1987. Quando ainda era jogador do Grêmio, ele, o goleiro Eduardo, o zagueiro Henrique e o atacante Fernando foram detidos no hotel Metrópole, em Berna, na Suíça, após serem acusados de cometer o crime contra uma garota de apenas 13 anos, que havia entrado na concentração gremista em busca de camisas e souvenirs da equipe. 

 

O Tricolor Gaúcho estava fazendo uma excursão na Europa, e os quatro acusados permaneceram na cadeia por um mês. Parte da imprensa da época e da torcida do Imortal culpou a vítima pelo estupro. 

 

“Resta dar as boas vindas aos nossos doces devassos”, escreveu o cronista Wianey Carlet, no jornal Correio do Povo, para celebrar o retorno dos jogadores, lembra uma reportagem do El País. 

 

Cuca, Eduardo e Henrique foram condenados a 15 meses de prisão por violência sexual contra vulnerável (menor de 16 anos). Fernando, por sua vez, foi enquadrado como “cúmplice”, e pegou apenas três meses. Contudo, a execução das penas expirou em 2004, já que o Brasil não extradita seus cidadãos e não mantinha acordos de cooperação com autoridades suíças. 

 

Mayana Sales, advogada criminalista e professora de Direito Penal, avalia que há uma dificuldade muito grande do Brasil para julgar crimes cometidos fora do país.

 

"É possível a aplicação da Lei Brasileira fora do Brasil? Sim. Há algumas hipóteses elencadas. Se o presidente for vítima de um crime contra a vida, contra a liberdade, poderemos aplicar a Lei Brasileira. Em algumas outras hipóteses, para que a Lei seja aplicada, é necessário que uma série de condições, ao mesmo tempo, estejam presentes. É necessário que seja crime no país onde cometeu, que a pessoa entre em território nacional, é necessário que haja requisição do ministro da Justiça. Quando analisamos, torna praticamente impossível. É possível na teoria, mas na prática há uma dificuldade de colocar isso para acontecer", destacou, ao BN. 

 

Aos dirigentes do Grêmio, Cuca afirmou que teve a “impressão de que a vítima possuía 18 anos”. 

 

Um jogador bem conhecido do futebol baiano, Vampeta, também tem no seu histórico uma denúncia de agressão contra mulher. Quando era jogador do Vitória, em 2004, o volante foi acusado por Roberta Soares, sua companheira, à época. Ela prestou queixa na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), apresentando lesões na testa e na cabeça. 

 

"Ela me disse que já tinha sido agredida antes pelo jogador”, afirmou a delegada Isabel Alice Jesus de Pinho, na ocasião, de acordo com reportagem do Uol Esporte. Nada aconteceu com Vampeta, que passou por outros cinco clubes após o caso.

 

“Eu acho que cada vez mais estamos criando a consciência de que as vítimas não são culpadas. É interessante que a vítima tenha essa consciência, porque elas se sentem muito culpadas, mas acho que é preciso haver mais informação e debates sobre esse assunto. Ainda não estamos onde gostaríamos, as vítimas continuam sendo culpabilizadas. Os dados são muitas vezes sonegados pelo estado. Quando a sociedade tem conhecimento dessas informações, fica mais municiada para poder cobrar”, comenta a Daniela. 

 

Em dezembro de 2019, estourou na mídia o caso do goleiro Jean, revelado pelo Bahia. O atleta confessou ter agredido a então esposa, Milena Bemfica, durante uma viagem de família para os Estados Unidos. Milena gravou um vídeo com o rosto cheio de hematomas, relatando a agressão. O boletim de ocorrência feito pela mulher indica que ela recebeu oito socos. 

 

Jean foi preso pela polícia americana, mas foi solto pouco tempo depois, já que Milena não quis prestar queixa formal contra ele nos EUA. O caso foi arquivado, mas o atleta foi obrigado a manter distância da ex-mulher. 

 

"Podemos pensar em uma série de fatores para a mulher não registrar o boletim de ocorrência. O fator medo, muito importante. O fator dependência financeira. O fator emocional, dependência psicológica. Eu diria que o fator preponderante nesses casos de fato é o medo. E em relação a essa sensação de impunidade, temos um recrudecimento da nossa legislação em relação à violência doméstica, a Lei Maria da Penha, que traz um tratamento mais severo. No entanto, há uma série de procedimentos nessa Lei que não têm uma efetivação na prática. Por exemplo, a medida protetiva de afastamento. O estado não consegue garantir de fato que o sujeito de fato vai se afastar. Por mais que seja importante, não tem como garantir que ela será cumprida. Muitas vezes não é, e passa essa sensação de insegurança", afirma Mayana. 

 

Atualmente, o goleiro pertence ao São Paulo, e atua por empréstimo no Cerro Porteño, do Paraguai. Em 2020, ele teve passagem pelo Atlético Goianiense, e chegou até a ser especulado no Bahia. 

 

“Devo dizer que Jean tem uma história dentro do clube, de formação de base, se revelou aqui dentro. Tem um carinho grande pelo Bahia e tem uma marca muito forte recente quando vazou essa notícia da agressão forte que ele teve contra a esposa. Um fato que vai marcar a carreira dele a vida inteira. Agora, naturalmente, acho que cada um deve responder pelos seus atos e eu não serei jamais o julgador de ninguém. Eu não sou daqueles que acha que se alguém errou em determinado momento, tem que carregar esse erro pela vida toda e não pode mais trabalhar, não pode mais desenvolver sua profissão. Sou absolutamente contra o entendimento de que o ser humano, por mais grave o erro que tenha cometido, ele tem que levar isso como pena pela vida inteira. Eu não acredito nessa forma de ressocialização e recuperação de pessoas", afirmou o presidente do Esquadrão, Guilherme Bellintani, à época (saiba mais aqui). 

 

Os casos são infelizmente comuns não só no mundo do futebol, mas na sociedade como um todo. A modalidade mais popular do mundo tende a reverberar de forma mais acintosa esse tipo de crime na mídia. Atletas como Maradona, Robinho, Marcelinho Paraíba, Carlos Alberto, Jobson, e muitos outros possuem em seu histórico acusações de violência contra a mulher, mas nunca deixaram de ter espaço por causa disso. 

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