por Fernando Duarte
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| Foto: Marcos Corrêa/PR |
Jair Bolsonaro e Sergio Moro são dois lados de uma mesma moeda. Tanto que para garantir sobrevivência política no curto prazo, ambos precisam passar por um constante processo de reatroalimentação das respectivas narrativas. De um lado, um presidente fragilizado com a saída do seu ministro mais proeminente. Do outro, um ex-juiz que emergiu como paladino da moralidade e que ajudou a construir o terreno no qual a semente da "nova direita" foi semeada e acabou dando frutos na eleição de 2018. A partir de agora, a convergência de valores, simuladas com a adesão do lavatismo ao bolsonarismo, estará fingindo estar de lados opostos, ainda que compartilhem suas bases e alicerces.
A repercussão da saída de um ministro pseudo-kamikaze mostra que ainda existe quem defenda a qualquer custo a condução dada por Bolsonaro ao Brasil. Sobram elementos que demonstrem a incapacidade do presidente incorporar itens primordiais para estar nesse posto. Desde a ausência de impessoalidade até o uso inadequado da máquina pública. Essa última característica sempre esteve presente na biografia de Bolsonaro, mas foi colocada embaixo do tapete como desculpa para remover o PT e a esquerda do poder. O vale-tudo antipetista nos levou a uma presidência da República constantemente desmoralizada por um ocupante que não está à altura da faixa presidencial. Uma consequência de nivelar por baixo os rumos da política.
Uma parcela expressiva dessa sucessão de meias verdades é responsabilidade do uso político da Operação Lava Jato. Mesmo que necessária para "limpar" o Estado brasileiro de perdulários, nasceu ali um sentimento anti-establishment, cuja fantasia Bolsonaro soube vestir bem. O atual presidente sempre esteve a léguas de ser um símbolo real de anticorrupção, antipolítica ou anti-status quo. No entanto, caiu como uma luva para a falsa esperança de que faria diferente. Não o fez e não o fará, como mostra a recente aproximação com caciques da "velha política".
Moro era talvez a âncora mais segura para o ideal de Brasil planejado por essa nova direita. A realpolitik, que se pratica nos corredores do poder, é bem mais pragmática do que o pragmatismo do ex-juiz em condenar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, sem ele no ministério, Bolsonaro precisa desconstruí-lo como algoz para manter ao menos um pouco do prestígio alcançado quando Moro foi alçado como integrante da Esplanada de notáveis. É um processo improvável de obter sucesso, mas precisa ser tentado.
O agora ex-ministro já iniciou o mesmo processo, mas com sinais trocados. Para não "manchar a biografia", justificou uma traição do ponto de vista político. Como os apoiadores dele tendem a manter ojeriza à política, fez um movimento relevante. Todavia, precisará suar bastante para manter-se em evidência até 2022, quando deve ser colocado à prova eleitoralmente. Na outra ponta, o bolsonarismo também mostrou que não vai deixar passar barato essa jogada de Moro. Vamos ter muito pano para manga.
Mesmo que parte dos analistas insistam que Bolsonaro e o PT são complementares, talvez seja preciso rever esse posicionamento. Moro e o atual presidente da República são mais umbilicalmente complementares do que essas duas forças. Portanto, o esforço para dissociá-los vai vir de ambas as partes. Por isso é tão importante mostrar a realidade: Bolsonaro e Moro são lados de uma única moeda. Gostem eles ou não.
Este texto integra o comentário desta segunda-feira (27) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM, Alternativa FM Nazaré e Candeias FM.
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JUSTIÇA





